mãe

busco uma lembrança e não encontro
encontro tantas!
embaralhadas pelo tempo
manuseadas pela ansiedade
emparedadas pela memória incoerente
busco uma fotografia e não encontro
encontro tantas!
ela sorri! aqui, na outra também,
na mais inesperada das fotos, ela sorri também!
queria mais dela, muito mais!
raio de sol, mãe, um raio de sol
vibrante, colorida, bela, forte
um girassol!

queria abraços, beijos, palavras, 
passados, presentes, planos
queria dar tanto a ela, tanto mais!
abraços, beijos, carinhos, espantos
fazer rir, fazer rir muito mais 
e nunca a fazer chorar 
deixar livre de dores seu coração-oratório
aquele que rezava até para quem lhe fazia mal...
proibir qualquer dor de lhe alcançar!
proibir o mundo de fazê-la sofrer!
nunca me despedir...

mas a verdade é que não tivemos uma cena de adeus
não o adeus definitivo, aquele sem volta…
o mal que é súbito, subitamente me deixou sem adeus. 
tantas despedidas, dissemos muitos até depois
mas em silêncio... 
nosso falar era silêncio...
por isso talvez ainda consiga ouvir a sua risada,  mas
me lembrar de menos em menos de sua voz...
preciso das fotografias. ou não.

minhas necessidades hoje são frugais
minha cabeça anda enfraquecida
e o coração se apega ao pouco
minhas malas estão num canto.
tenho hoje a idade que ela tinha 
quando a vi pela última vez
meu coração está repleto dela

Feliz aniversário mãezinha, onde estiveres! Quatorze anos longe… mas chegaremos lá, chegaremos ao encontro à tempo!

Photo by Aaron Burden on Unsplash

teoria

minha teoria é teoria
de conspiração
um coração
perseguindo
seguindo
freneticamente
o mesmo coração
como se fosse ele
o mesmo coração
o coração-cérebro
o coração-mundo
o coração do mundo
coração de todo mundo
batidas indo e vindo
seguindo
perseguindo
infinitamente
o mesmo coração
o teu, o meu, 
o dele, o dela,
de cada um
o coração 
um só coração
batendo e recriando
o mundo  

Photo by Will O on Unsplash

precioso

firo
feridas largadas
interfiro
arranco as amarras
não curo
não curto
sou curto-circuito
não sigo intuições
moo corações
não deixo por menos
e o menos?
é a sobra do mais
ou demais?
pressinto
o ócio
ocioso estado
precioso
um fado
um vento
não sento
eu danço
eu canto
amanso
os ânimos
abro o cinto
me solto
me revolto
entorto
os caminhos
na insurgência
contra as convergências
preciso do
ócio
preciso
tão preciso ócio
ocioso eu
precioso eu
preciso
ser
eu
 

Photo by Luke Dahlgren on Unsplash

pregação

prego sobre prego
uma pregação
está cego
o coração
inanição
do ego
prego
sobre
prego
a pregação
cegueira
coletiva
viseira
assertiva
falta de
informação 
prego sobre prego
ilusionismo
aflição
a religião
não é céu
é eufemismo
de inferno
vendas nos olhos
alívio à venda
e a compra é (i)legal
legal mentir
sobre o eterno
existir
prego sobre
prego
sobre mais nada
- tantos cegos! -
a praga encantada
sobre o brasil
fake news.

 

 

Photo by Mahbod Akhzami on Unsplash

Vida verdadeira

faço parte, faço de conta
faço arte, desfaço pontas
sofro cortes, sofro aos montes
amo forte, bebo da fonte...

erro, acerto, tenho dúvidas
vivo, como tem que ser, a vida...
assim no dia da partida
talvez tenha a ausência sentida...

Viver é muito mais do que abrir os olhos.

A vida não é se encantar com bobagens.

Photo by João Ferreira on Unsplash

Poema de 1o de dezembro de 2014

Me parto


jogo palavras fora.
fora de mim, fora de meu coração 
fora de minha alma, fora de meu corpo
fora de tudo o que eu possa ser
palavras fora... eu jogo  
e elas saem de mim perfurando o corpo, 
abrindo os poros, escrevendo dores  
palavras saem, palavras jorram, 
fora da minha alma e da agonia sentida
um parto 
parto e não sei se volto
a partir de dentro
ao partir de dentro
parto e os pedaços se espalham  
pelo mundo, do mundo, de mim  
de meu corpo dilacerado
das partes de mim  
do tanto que fui ou que imaginei ser 
as palavras que se cantam, 
as palavras que se rezam, 
as palavras engolidas
as palavras que enganam, 
as palavras vomitadas
as palavras que cortam
as palavras que chicoteiam
as palavras que benzem
as palavras que embalam
as palavras que afagam
as palavras que entopem as veias
as palavras de fora e de dentro
de dentro e fora
para dentro e para fora...
jogo palavras fora
estouro, me liberto, me nego
me mostro, me doo, me escondo
a face, o fato, a faca, o foco
dói. e dói. dói tanto.
mas me jogo
um parto
me reparto
me parto.
 

Photo by Annie Spratt on Unsplash

Olhar de paixão

Olhos nos olhos, profundamente
um olhar dentro do outro.
e do coração, perdidamente!

A paixão não convida a gostar
ela intima a um sentimento louco
por isto diz-se: apaixonar!

Na paixão um ser perde-se noutro.

O olhar é pimenta e o dizer é rouco.

Art by Tikal-SH (Antonia Glaskova)

(Poema de 2014)

O caminho

Meus passos dão voltas e mais voltas
não seguem e não retornam, apenas volteiam
como as ideias, elas que vivem soltas...

Minhas pernas se mexem pra frente e pra trás
mas o caminho não é feito, os passos não são dados
e a chegada ao destino se ampara em jamais...

Caminhar não é apenas querer seguir.

O caminho é feito de passos e objetivos.

Art by PhilipMatthews on DeviantArt

*Poema de 2014 (ando trazendo pra cá poemas e outros textos que foram publicados anteriormente em meu antigo blog, Certas Linhas Tortas)

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