Rotina

Enquanto eu tentava achar uma roupa
ela passava roupas em silêncio.
O mesmo silêncio que entre nós
se fazia absurdo
surdo
um penhasco, um abismo.
Já fazia tempo.
Quanto tempo?
Que para as perguntas dos olhos
nenhuma resposta tinha.
Ela sozinha.
E eu também.
O mesmo teto, o mesmo afeto.
Nenhum desejo.
Apenas o ensejo
de deixar passar...

Poema de 9 de fevereiro de 2015

Photo by Roselyn Tirado on Unsplash

Linhagem

Ainda escrevo. Pouco, mas escrevo. Minhas linhas frias muitas vezes cortam. Minhas letras outras vezes quentes, mais do que esquentar, derretem. Sou destrutiva? Autodestrutiva? Minha linhagem tatuou em mim a vontade de escrever compulsivamente. Um desejo doido e doído de escrever tanto, tanto, mas tanto, que a mão doa, os dedos sofram, o coração se desespere, a alma até se despeça. Me tornar pedaços, despedaçados os pensamentos, jogados ao léu, levados pelo vento, engolidos pelo vão do espaço. A mesma linhagem que me condenou a mente ao sofrimento de viver permanentemente entre o céu e o inferno, me legou a chave dando acesso às profundezas do âmago alheio, o que me encara ou tenta, por subterfúgios, se esquivar de mim. Transparência. É o o que vejo. Diáfanos medos, desmedidas paixões. Tudo transparente, o suficiente para turvar a visão, acelerar loucamente as ondas entre os neurônios. Demônios. Alheios e aqui de dentro de mim. Do reinado da paz há muito fui destituída. O poder me foi outorgado pela dor e com sua força, ou a total falta dela, fecho e abro os olhos, vivo e morro, sangro toda minha essência e com este sangue escrevo. Poeto. Para poeternizar o que jamais quereria explicar.

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Nexo

nexo
não tem
por mais que eu procure
não tem
e eu
perplexamente
percebo haver
um lado escuro
de onde surgem inesperados medos
onde vivem os ignorados segredos
segredos e medos
medos e segredos
rimando uns com os outros
confundindo significados
se misturando na mente
pensamentos em ebulição
perfurando o sono
estados da mente confusos
meu fuso horário mudou

Photo by Elle Cartier on Unsplash

Fractal

guarda o beijo na boca
teu beijo 
guarda na boca
guarda
o beijo
teu beijo
na boca
tua
boca
o beijo
guarda
guarda
na tua boca
sou um ser possessivo, intempestivo e todo adjetivo que mude meu
ser substantivo
sou uma alma louca
solta
e teu beijo
é prisão
então guarda
- não me guarda -
teu beijo
- despejo -
e não me interrompa mais
não me corrompa mais
afogue na saliva o beijo
tranque na garganta o beijo
engula o beijo
digira o beijo
não me faça te ser
fatal


 

Photo by Possessed Photography on Unsplash

Persona

visto a roupa de domingo
em plena quarta-feira
cinza
implicações
complicações
elucidações
tardias
de que servem
explicações
sob a chuva fina?
não volta o tempo
não voltam os momentos
e os problemas todos
viram besteiras
não digo adeus
nem perco o fio da meada
ao desejar sorte
tudo o que quero hoje
é rir, sentir a delicadeza
de uma missa de longe
sem mais rimar tudo
com dor e com morte
personificar a crença
na indiferença
de um deus
bom (cruel)
eterno (fel)
e pai (réu)
não ser esta persona
da vida
desencantada 

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