ímpetos

ímpetos
de estar ao teu lado
de ouvir teu apaixonado
coração a falar 
a emoção nos olhos descuidados
pousando
sobre teu caminhar
um sobressalto
os saltos altos
musicando os versos 
do corpo a dançar
ímpetos
de abraçar
agarrar
me debruçar
sobre tudo aquilo
que um dia 
deixei passar

Photo by Julia Caesar on Unsplash

(de um verso de 2014 nasceu um poema)

mal

não sei mais onde é o fim
e mesmo se existe um fim
para o mal
me vejo parada, sedada
pela apatia inutilizada
pela visão do mal
ele me corrói as entranhas
e suas ações não me são estranhas
eu reconheço o mal
era ele que se travestia de sorriso
de boa educação cheia de avisos
bem disfarçado o mal 
sob o manto das doações oficiais
a propaganda dos mestres oficinais
sob a égide do mal
trabalhava comigo, era meu amigo
mais que isto, família, nunca inimigo
tão mascarado o mal
para que lado manter o olhar livre
para quando esperar o coração livre
desse inominável mal
agora que sei que ele é algo imenso
ele é tanto e ele são tantos - não há senso -
o que fazer com o mal
jogá-lo ao bem bem fundo imundo dos esgotos
abandoná-lo a seus semelhantes mais escrotos 
afogar o mal
depois pouco a pouco reconstruir o possível
sem nunca esquecer a mão do invisível
poderoso asqueroso mal
não deslembrar a destruição de tantas vidas
nunca olvidar a maldição que foi em cada vida
a ascensão do mal
a ilusão do mal
o aniquilamento
esterilização
o assolamento
devastação
profanação 
sofridos
pelo
mal

Photo by v2osk on Unsplash

mãe

busco uma lembrança e não encontro
encontro tantas!
embaralhadas pelo tempo
manuseadas pela ansiedade
emparedadas pela memória incoerente
busco uma fotografia e não encontro
encontro tantas!
ela sorri! aqui, na outra também,
na mais inesperada das fotos, ela sorri também!
queria mais dela, muito mais!
raio de sol, mãe, um raio de sol
vibrante, colorida, bela, forte
um girassol!

queria abraços, beijos, palavras, 
passados, presentes, planos
queria dar tanto a ela, tanto mais!
abraços, beijos, carinhos, espantos
fazer rir, fazer rir muito mais 
e nunca a fazer chorar 
deixar livre de dores seu coração-oratório
aquele que rezava até para quem lhe fazia mal...
proibir qualquer dor de lhe alcançar!
proibir o mundo de fazê-la sofrer!
nunca me despedir...

mas a verdade é que não tivemos uma cena de adeus
não o adeus definitivo, aquele sem volta…
o mal que é súbito, subitamente me deixou sem adeus. 
tantas despedidas, dissemos muitos até depois
mas em silêncio... 
nosso falar era silêncio...
por isso talvez ainda consiga ouvir a sua risada,  mas
me lembrar de menos em menos de sua voz...
preciso das fotografias. ou não.

minhas necessidades hoje são frugais
minha cabeça anda enfraquecida
e o coração se apega ao pouco
minhas malas estão num canto.
tenho hoje a idade que ela tinha 
quando a vi pela última vez
meu coração está repleto dela

Feliz aniversário mãezinha, onde estiveres! Quatorze anos longe… mas chegaremos lá, chegaremos ao encontro à tempo!

Photo by Aaron Burden on Unsplash

teoria

minha teoria é teoria
de conspiração
um coração
perseguindo
seguindo
freneticamente
o mesmo coração
como se fosse ele
o mesmo coração
o coração-cérebro
o coração-mundo
o coração do mundo
coração de todo mundo
batidas indo e vindo
seguindo
perseguindo
infinitamente
o mesmo coração
o teu, o meu, 
o dele, o dela,
de cada um
o coração 
um só coração
batendo e recriando
o mundo  

Photo by Will O on Unsplash

precioso

firo
feridas largadas
interfiro
arranco as amarras
não curo
não curto
sou curto-circuito
não sigo intuições
moo corações
não deixo por menos
e o menos?
é a sobra do mais
ou demais?
pressinto
o ócio
ocioso estado
precioso
um fado
um vento
não sento
eu danço
eu canto
amanso
os ânimos
abro o cinto
me solto
me revolto
entorto
os caminhos
na insurgência
contra as convergências
preciso do
ócio
preciso
tão preciso ócio
ocioso eu
precioso eu
preciso
ser
eu
 

Photo by Luke Dahlgren on Unsplash

pregação

prego sobre prego
uma pregação
está cego
o coração
inanição
do ego
prego
sobre
prego
a pregação
cegueira
coletiva
viseira
assertiva
falta de
informação 
prego sobre prego
ilusionismo
aflição
a religião
não é céu
é eufemismo
de inferno
vendas nos olhos
alívio à venda
e a compra é (i)legal
legal mentir
sobre o eterno
existir
prego sobre
prego
sobre mais nada
- tantos cegos! -
a praga encantada
sobre o brasil
fake news.

 

 

Photo by Mahbod Akhzami on Unsplash

%d blogueiros gostam disto: