Sapatos Velhos

 
(Texto de 2011)

O melhor motivo para jogar um sapato velho fora é a vontade de preparar o espaço para um novo par. As maiores desculpas para guardá-lo são o medo dos calos que sapatos novos costumam causar, a preguiça de sair para comprar outros e, a pior de todas, a acomodação. Sem falar do medo que temos de simplesmente mudar.

Todas as vezes que estamos numa situação em que damos de cara com o sapato velho e, necessitados urgentemente de um novo, não conseguimos nos decidir sobre o que fazer, remetemos a situação para uma próxima vez. E o deixamos lá.

Gasto, furado, remendado. Mas jamais trocado ou traído. Traímos nossos pés, mas nunca os sapatos velhos. Como não traímos os médicos que temos desde os tempos da antiguidade e que nem sabem mais o que nos receitam porque, de tanto nos ver já nem se importam com o que temos ou não. Como nunca abandonamos os amigos que quase sempre nos deixam na mão nas horas em mais precisamos ou só nos procuram na hora que eles precisam. Como não largamos mão de outros tantos, amigos, colegas, familiares, que afundam facas em nossas costas cada vez que nos viramos para olhar o horizonte. Como continuamos a trabalhar sem reclamar para pessoas que não nos dão a menor importância mas valorizam qualquer deslize que cometemos.

Preferimos manter tudo o que foi estabelecido em torno de nós: porque assim crescemos e assim fomos educados. Para não ser indelicados, não mostrar desagrado, não provocar. Temos preguiça, nos acomodamos, sentimos pena, pensamos nos “porquês” e não nos damos sequer ao trabalho de responder a nós mesmos as indagações gritantes que nos chegam a cada situação que se repete. Deixamos nossos armários cheios de sapatos velhos e costumeiros, alguns tão desnecessários que, só de olhar, já sabemos o mal que vão nos causar. Outros ainda guardamos porque são bonitos e causam aquela super impressão aos olhos de quem nos vê com eles.

Mas sapatos não são eternos mesmo que extremamente bem conservados. Nem os velhos que nos deixam confortáveis. Nem os novos que possam nos fazer calos.

Muitas vezes temos que passá-los adiante, trocar, talvez até  jogar fora. Depois providenciar um novo par. Tentar de novo. E de novo se for preciso. Porque o prazer da renovação vale a pena. Renova-se os pés e a cabeça. A sensação de alívio é imediata.

E afinal, nada disso impede que se guarde um chinelinho daqueles do tempo de… você sabe… bem guardados no fundo de nós ou do armário, para aqueles momentos em que, duvidosos da vida ou de nós, tenhamos por perto uma pontinha do que possa parecer um porto seguro.

Photo by Dickens Sikazwe on Unsplash

Publicado por Poeternizar

Eternizando versos, versejando vida, poetando sonhos, poeternizando a emoção de cada dia.

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