NA CASA CANSADA


O cheiro de velho atulhava o local. Velho mesmo, com mistura de mofo, lembranças perdidas e restos de móveis cansados. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas, mais da metade do assoalho já havia partido. Ele estica as mãos até o chão e traz com elas um pedaço de papel, extravagantemente branco, para perto dos olhos. Lia-se ainda: … e no dia que eu me for desta casa levarei comigo toda a … . Adivinhava a voz dela dizendo aquilo, raivosa, alto, menina: – E no dia que eu me for desta casa levarei comigo toda a vida que ela tiver, todinha, está entendendo? Não vou deixar nada! Mas o papel amassado também tinha cheiro de velho. Fazia tempo. Tempo demais. Ele jurara que valeria a pena, que sua partida seria temporária e necessária, mas quando voltara, três anos depois, a casa estava assim, vazia dela. Só seu corpo estivera esperando por ele por dias e dias infindos, mas os vizinhos se incomodaram e tiraram ele também de lá, o corpo velho e sem vida. Agora ele estava ali tentando reatar com seu passado, mas sem ela. Tentava resgatar o que ainda poderia ser vivido, mas sem ela. Também estava velho, sua existência embolorada, mas decidira tentar. Ia começar jogando os móveis fora.

Publicado por Poeternizar

Eternizando versos, versejando vida, poetando sonhos, poeternizando a emoção de cada dia.

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