O TREM DA SOLITUDE

Largou o casaco na cadeira e os ombros sobre o corpo cansado. Procurou nos bolsos o que ainda poderia estar ali: carteira, dois tickets de supermercado, uma bala, duas moedas. Colocou tudo sobre a cômoda. Enquanto olhava ao redor procurando uma caneta sentia seus pés fincados no chão como raízes. Levantou um pé, depois o outro, não queria raízes. Se houvesse caneta provavelmente estaria muito longe, longe demais. Deixou pra lá, sentou no pequeno sofá da sala e fixou a televisão desligada. Como ele, ela não tinha mais nada a dizer. Pegou o copo que estava sobre a mesinha e bebeu os últimos goles. Recostou a cabeça e deixou-se descansar. Até que a passagem chegasse para que a partida se fizesse só havia mais um passo: o inacreditável sono que começava a sentir levemente. Mais um pensamento, uma última reflexão e tentou com ela buscar qualquer âncora. Nada. Coisa ou pessoa alguma poderia chegar ali naquela estação e deter o trem. Ele estava de partida e não havia sequer para quem dizer adeus.

Publicado por Poeternizar

Eternizando versos, versejando vida, poetando sonhos, poeternizando a emoção de cada dia.

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